Publicado por: Gaby | 10/03/10

Blog do Gary – Tema de “Tubarão”*

Então, então eu sumi daqui por um tempo. Nas palavras de Adrian Monk, eis o que aconteceu:
Há 8 anos atrás, eu caí das escadas da boate Art School, em Glasgow. Me quebrei feio. Meus olhos se fecharam como os de um boxeador nocauteado e perdi alguns dentes, que foram substituídos, caso você esteja pensando consigo mesmo “mas não me lembro de tê-lo visto sem dentes”. Parece que a ortodontia evoluiu bastante nos últimos tempos – tudo o que os Elisabetanos tinham eram um balde de tinta branca e a loucura que vinha como consequência de pintar seus dentes de branco e inevitavelmente gastar o esmalte do dentes, deixando apenas o nervo.
Sim, meus amigos, todos podemos agradecer pelos progressos (algum progresso, pelo menos). Um jornalista me perguntou uma vez em que época eu gostaria de ter vivido. Não me lembro minha resposta na ocasião, mas pensando novamente nessa pergunta, diria que qualquer período após a invenção da ortodontia moderna e da descoberta da penicilina. Então nem preciso me dar ao trabalho de terminar de construir aquela máquina do tempo.
Eu estava contando uma história…
Então, há 8 anos tomei um tombo feio e era um bêbado tão babaca que quando Jonny Quinn (abençoado seja!) me levou ao pronto socorro, nenhuma das enfermeiras-da-noite-de-sábado-que-já-viram-de-tudo deram a menor importância (e estavam certas) para mim, quando acordei apavorado no dia seguinte. Eu digo o seguinte, pessoal, acordar numa cama de hospital ao qual você não lembra de ter entrado, sem alguns dentes, com apenas um olho abrindo e a pior ressaca da vida é algo que não desejaria nem ao meu pior inimigo. Não ter nenhum inimigo (talvez algumas pessoas não gostem de mim, mas isso não é em vão, pois amo todos) não vem ao caso, mas também não desejaria ter um inimigo para desejar isso a ele. Porque, devido à minha babaquice bêbado com as enfermeiras na noite anterior, tudo que elas queriam era se livrar de mim, então não tiraram nem um Raio-X na época. Deixem-me esclarecer que não estou puto com as enfermeiras. Elas aturam um monte de merda, como a minha naquela noite (e até pior), todo final de semana e estou apenas envergonhado de mim mesmo, e não irritado com elas.
Enfim, alguns anos após esse incidente, minha mandíbula começou a doer e virou uma fonte de incômodo (e, às vezes, dor insuportável) por anos e já visitei todo tipo de gente por isso. Minha desconfiança na medicina ocidental significa que nunca tiraram um Raio-X dela. Idiota! Posso dizer a quem estiver com dores consideráveis no momento, qualquer que seja a forma que você escolha tratar disso, a primeira coisa a se fazer é tirar um Raio-X ou uma tomografia, e então decida ir para uma direção ou para outra com a cura.
Enfim, depois de terminarmos o álbum do Tired Pony em Portland, vim para L.A. com Garret para mixá-lo e começar a trabalhar numa trilha sonora de um filme. Foi quando meu maxilar começou a doer tanto que não pude mais aguentar e fui a um médico, que imediatamente tirou uma radiografia e descobriu que ela estava deslocada. E por um bom tempo, já. Foi quando rastreamos até o incidente na Art School, pois foi a única vez em que aterrissei de cabeça, caindo de uma boa altura.
Nossa, que história longa dessa vez, hein? Corta para agora. Decidi ficar em L.A. e cuidar disso. Então aqui estou. Sendo tratado por ocidente e oriente. Ocidente vai na conta do aparelho dentário que precisarei usar por alguns meses, e então veremos como seguir o tratamento depois. Oriente, ou pelo menos holisticamente, tenho feito acupuntura e esse negócio chamado Rolfing (parece algo sexual estranho, né? E é. Não, nem é. É uma profunda massagem e manipulação dos músculos se concentrando, no meu caso, mas não exclusivamente, nos músculos do maxilar). Além disso, tenho andando de bicicleta e feito yoga, além de fazer coisas para espairecer uma mente muito confusa que nunca desliga, e relaxar um corpo que não parou de se mexer em mais de uma década.
Quanto mais eu analiso, mais reparo que só cabe a mim, Eu posso, todos nós podemos, nos curar (ao menos, em boa parte) vivendo bem e tentando ser o mais feliz e contente o possível com o que nós temos. Minha gota d’água, acho, foi quando fui da Take Back the Cities Tour para a Reworked Tour e então, no começo desse ano, tentei fazer três álbuns – na verdade, dois álbuns e uma trilha sonora – no espaço de dois meses.
Muita gente me dizia que isso iria acontecer se eu não tomasse cuidado e não dei atenção a eles. Parece, de novo, que eu estava errado, e eles – as pessoas que se importam comigo – estavam, de novo, certos. Se eu puder dar um conselho a alguém sobre tudo isso seria que vocês precisam achar um momento para vocês todos os dias. Não precisa ser muito tempo, mas apenas um lugar calmo ou um espaço aberto aonde você possa ir sozinho e respirar o mais fundo possível por 20 minutos por dia. Dêem ouvidos, não dêem ouvidos, vocês quem sabem, mas com certeza isso está me ajudando.
Não é uma daquelas coisas “nasci de novo” e eu nunca começaria a pregar devoção de nenhum tipo, pois ainda gosto de beber e sair à noite tanto quanto sempre gostei. Só preciso escolher o que é mais importante: viver bem por mais 40 anos ou viver do jeito que estive vivendo por mais 10 anos, se tivesse sorte. Não consigo imaginar que algum de vocês lendo isso aqui tenha colocado tanta quantidade de veneno em seus corpos como eu botei ao longo dos anos (claro, às vezes era divertido, mas eu não recomendaria isso) então não espero que alguém vá pensar muito a fundo sobre o que estou escrevendo. Porém, irlandeses não fazem terapia, então escrever isto é o mais perto que chegarei disso, acredito. Espero que não tenha sido chato demais de ler. Mas sou, como sempre, um livro aberto.
Fui ver “Alice nos País das Maravilhas” ontem à noite. Porra, é incrível. Se for ver, veja em 3D. Nunca tive tantos momentos de puro encantamento e diversão no cinema desde que fui a um pela primeira vez, com meu pai, ver “O Retorno de Jedi”. Tive a mesma sensação ontem vendo Alice que tive naquela época. Obrigado Tim Burton e, meu bom Deus, obrigado Jonny Depp. Ano que vem a Academia têm de, finalmente, dar a esse homem o que ele merece há tanto tempo, que é uma daquelas estátuas douradas de um homem sarado sem pênis. Ele é o ator mais incomum e versátil de sua geração e essa é sua melhor performance. Ele entra e sai das múltiplas personalidades do Chapeleiro tão ágil e rapidamente, que você mal acredita em seus olhos e ouvidos. Corra, não vá andando para assistir.
Me desculpem por ter estado meio quieto no fórum, mas estava com a cabeça cheia. Espero que todos estejam bem e que estejam tendo um ótimo ano até agora.
Muito amor. x

* O filme “Tubarão”, em inglês, se chama “Jaws”, que significa maxilar.


Respostas

  1. Nossaaa.. o Gary escreve muito… é gostoso ler esses posts. Gaby tks pelas traduções.


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias