Publicado por: Gaby | 14/02/10

A visita de Gary e Jonny à África em 2007

Quem leu o último blog do Gary, no qual ele falava do Haiti, deve ter reparado numa hora em que ele diz: “Já vi isso dar certo (e também errado) em Uganda, em primeira mão, e quando dá certo (água limpa, novas escolas, vacinas, remédios para a AIDS) é algo realmente especial”. Ele estava se referindo à viagem à África que ele e Jonny fizeram em 2007, quando foram conferir algumas das obras que a organização de caridade Oxfam, junto com a fundação Save the Children, mantém lá.
Após visitarem soldados infantis na Uganda do Norte, Jonny e Gary se juntaram à equipe da Oxfam em Kampala e conheceram melhor o trabalho que a Oxfam realiza na favela da região, chamada Mbuya. Durante a viagem, eles visitaram a Iniciativa das Mulheres de Kinawataka e conheceram a carismática Benedicta Manyonga Nabingi, de 56 anos, que trabalhou no Banco de Uganda por 20 anos até ser obrigada a parar de trabalhar devido a uma doença na espinha dorsal.
Gary disse: “Uma pessoa em particular jamais esquecerei. Benedicta é a líder da Iniciativa das Mulheres de Kinawataka. Animada e no obviamente no comando, ela nos mostrou seu trabalho, sua casa e algumas das casas vizinhas. Ela não só criou e comanda a iniciativa das mulheres – que faz bolsas e cintos de simples canudinhos de bebidas – como também cuida de várias crianças cujos pais morreram nas guerras, de AIDS ou de pobreza. Cada cômodo em sua pequena casa é cheio de beliches, alguns com crianças rindo do cara branco magrelo enquanto passo. Benedicta é uma força da natureza e parece estar mantendo essa comunidade unida com suas duas fortes mãos. Depois ela nos levou pela favela até a casa de uma das mulheres da organização, pois ela não tinha forças para nos acompanhar por estar nos estágios finais da Aids.”
E continua: “A Oxfam precisa fazer de tudo que puderem para ajudar pessoas como Benedicta e para encorajar as pessoas locais a se ajudarem. Somente auxílio não consegue reerguer um país em ruínas. Orgulhos nacional e pessoal precisam ser restaurados e isso só será possível dando poder ao povo local.”
Gary relatou a experiência para o site New Statesman:
“A Uganda é um país africano que sofreu muito ao longo de duas décadas de violência. Os conflitos começaram em 1986, quando o atual presidente, Yoweri Museveni, assumiu o poder numa revolta conduzida pelo Exército de Resistência Nacional. O grupo cristão Resistência Armada de Deus foi formado em oposição a Museveni, com a finalidade de desestabilizar e desmoralizar a região norte.
“As táticas do LRA consistem em sequestrar crianças para guerrear. A ONU estima que entre 20.000 e 30.000 crianças – algumas com idades de 6 anos – foram raptadas desde então. Essas são levadas de seus lares, campos próximos e até das escolas. Amarradas e em fila, são levadas aos esconderijos do LRA, onde são espancadas e ameaçadas de morte até que a lavagem cerebral seja completa o suficiente para que sejam armadas com rifles.
“No avião a caminho de Gulu com a Save the Children, nós sobrevoamos infindáveis terras verdes. Me disseram que dá para cultivar qualquer coisa ali. Mas as pessoas de Gulu são pobres e estão desesperadas. O fato de a terra ser fértil o suficiente para alimentar todas as pessoas diversas e diversas vezes, e isso não acontecer, me deprime muito. As pessoas têm medo de ficarem em suas casas e serem raptadas ou assassinadas. Por segurança, muitos vivem em campos de refugiados. Poucas confiam no cessar-fogo.
“Depois de 20 anos de guerra, a maior parte da infraestrutura em lugares remotos de Uganda é precárias. Como homens, mulheres e crianças, a educação e a saúde foram grandes baixas de guerra. Enquanto estivemos em Gulu, visitamos escolas e hospitais, e as condições eram péssimas.
“Numa das escolas do projeto da Save the Children, fomos recepcionados por cerca de 1.500 alunos, que dividem apenas 37 professores. Essa é uma escola bem equipada, já que tem a ajuda da caridade; tem mesas, quadros e salas de aula. Outras que visitamos tinham poucos desses itens essenciais. Na maioria, as crianças sentavam no chão aprendendo com um quadro-negro gasto. Isso se tiverem sala de aula.
“O adorável diretor havia sido uma vítima do LRA. Há alguns anos, ele foi seqüestrado dos terrenos da escola: o LRA estava tentando destruir completamente o sistema educacional seqüestrando professores. Ele foi mantido refém por 10 dias antes de corajosamente fugir e ainda mais corajosamente tentar reconstruir a escola.
“Quando vemos quanta coisa foi doada pela Save the Children, me pergunto o que eles fariam sem essas organizações. Ainda poderia ser o lugar de onde o diretor foi raptado. Na época, aulas eram ministradas sob a sombra de uma enorme árvore. Por causa da guerra, há poucos fundos governamentais destinados à educação, então pessoas como o diretor têm de se virar. A escola tem um grande jardim de vegetais, no qual as crianças cultivam para seu próprio almoço.
“Mas as escolas raramente são tão permanentes como esta. Outras que vimos eram pouco mais do que cabanas, com um professor para 3 turmas.Cada turma espera pacientemente, às vezes por horas, até que seja sua vez de aprender. Ainda assim as condições das escolas parecem boa em relações às dos hospitais.
“No nosso último dia no norte visitamos o hospital de Gulu. A chefe das enfermeiras, Oliangole Jenny Rose, e a administradora da enfermagem, Lillian Okot, nos mostraram as alas. O cheiro era insuportável. Os lençóis estavam manchados, o chão sujo e às vezes coberto de palha. Crianças gritavam de desconforto enquanto suas mães exaustas tentavam consolá-las.
“O único lugar esterilizado era a parte de cirurgias, então até mesmo os procedimentos mais básicos, como fazer um curativo, tinham que ser realizados lá. Numa ala separada, uma mãe fazia carinho em algo enrolado num pano no chão, que, olhando mais de perto, vi que eram pequenos gêmeos. A mãe e suas anjinhas tinham Aids, para o que não há remédios os suficiente.
“A enfermeira Okot nos disse que muitos membros da equipe foram atraídos para empregos melhor remunerados e menos perigosos na África do Sul, Europa e Estados Unidos. Ela viajou durante anos, aprendendo técnicas médicas pela Europa, mas sentiu a necessidade de voltar para casa e ajudar. Essas comunidades não sobreviveriam sem esses heróis. A enfermeira Rose disse que o hospital não tinha gerador, e na noite em que cheguei, faltou luz. Estava no hotel a acordei numa escuridão opressiva. Manter um hospital nessas condições parece impossível. Mas eles tentam.
“Há pouca assistência à saúde vinda do governo para o norte da Uganda. A demanda dos pacientes é grande demais, a equipe é pequena, há poucos suprimentos básicos. Escolas sofrem a mesma negligência. Não há salas de aula, livros ou professores suficientes para todas as necessidades das crianças que querem aprender ‘para uma vida melhor’. Alguns querem ser médicos ou advogados, mas a maioria quer ser professor. Eles querem seguir os passos daqueles cuja coragem os inspiraram.
“Ouvimos muito sobre corrupção e ganância na África, e sobre a pobreza e o desespero do seu povo. Ouvimos pouco sobre os heróis que mantém essas comunidades. Foi meu privilégio conhecer algumas dessas incríveis pessoas na nossa curta estadia em Uganda. Professores, enfermeiras e líderes comunitários são inspirações. Agora só podem torcer para que a paz dure.”

- New Statesman, novembro de 2007 [obrigada pela dica, Janaína!], Oxfam


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